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Coluna »
04.01.2010 às 17:39
Alimentos que Mentem
O advento da alimentação moderna ou industrializada tem conduzido a um desastre à saúde humana, aliado a uma série de problemas ambientais. Na últimas décadas o modelo convencional de agricultura tem dedicado suas energias a aumentar a produtividade e a vender alimentos o mais barato possível. Esses ganhos em quantidade foram obtidos à custa da qualidade. Era de se esperar que para alcançar objetivos quantitativos seria sacrificada pelo menos parte da qualidade dos alimentos1.
Realmente, o sistema convencional ou industrial tem dado vários exemplos de insustentabilidade para o meio ambiente, para os agricultores e consumidores. Problemas de erosão e baixa produtividade das terras e culturas, doenças como vaca-louca, febre aftosa, contaminação por dioxina e, mais recentemente, a gripe suína batizada de H1N1, tem feito a opinião pública prestar mais atenção na segurança dos sistemas de produção alimentar.
Os dados do último Censo Agropecuário2 brasileiro mostram um aumento das monoculturas, basicamente soja, milho e cana e também do rebanho bovino (quase uma cabeça de gado/ habitante no Brasil). Essas monoculturas vêm substituindo gradativamente propriedades familiares diversificadas que são a base da segurança alimentar e nutricional, minando as culturas alimentares tradicionais e reduzindo a diversidade biológica da dieta humana em toda parte do mundo, com reflexos cada vez mais visíveis para a nossa saúde.
Dieta Moderna = Doenças Crônicas
A escolha por esse modelo de produção de alimentos vem modificando intensamente o ambiente em que vivemos. Os reflexos apontam para alteração de hábitos alimentares com uma dieta baseada na introdução de substâncias químicas para cultivar plantas e animais; uso de conservantes, produtos irradiados e geneticamente alterados; alimentos excessivamente processados, refinados e pobres em fibras; e, consumo exagerado de gorduras, açúcares e sódio. Dizem que esse modelo tem garantido “comida para todos”, além de melhorar a aparência, o sabor e, sobretudo, a capacidade de conservação dos alimentos. Foram mudanças realizadas paulatinamente, porém sem a consciência de que tais atitudes poderiam ser nocivas à saúde.
A padronização e a redução da diversidade alimentar – em termos de espécies vegetais - trouxe mais benefícios para a saúde da indústria do que para a saúde do consumidor. Entrando num supermercado a impressão é que a diversidade alimentar aumentou. Ledo engano! Em verdade o que cresceu foram as opções de escolha do mesmo produto (milho e a soja, basicamente), que associado ao marketing, levam uma imagem de fartura alimentar ao consumidor. Para se ter uma idéia, cerca de 75% dos óleos vegetais na nossa dieta vêm da soja (representando 20% das calorias diárias) e mais da metade dos adoçantes que se consome vêm do milho (representando 10% das calorias diárias).1
Outra consequência do modelo industrial foi a queda no conteúdo de nutrientes da maioria dos produtos agrícolas nos últimos 50 anos. Estudos nos EUA e na Inglaterra mostraram que houve uma diminuição de cerca de 10% ou mais em níveis de vitamina C, ferro, zinco, cálcio e selênio, em mais de 40 produtos agrícolas acompanhados desde a década de 1950.4
Em termos práticos, atualmente é preciso comer mais para se obter a mesma quantidade de nutrientes de antigamente. Assim, a maioria da população hoje come mais alimentos de baixa qualidade. O resultado é que as doenças crônicas ligadas à alimentação (doenças cardiovasculares, câncer, diabetes e AVC5) já são responsáveis pela maior parcela de óbitos e das despesas com assistência hospitalar.
Mudança de Comportamento e Saúde
No Brasil, as doenças ligadas à dieta alimentar totalizaram cerca de 69% dos gastos com saúde em 2002.6 Projeções para o futuro indicam um crescimento epidêmico de doenças crônicas, particularmente das doenças cardiovasculares e diabetes, ligados sobretudo à alimentação inadequada, inatividade física e tabagismo. O problema do tabagismo tem sido motivo de muitas campanhas, mas ainda cerca de 20 % da população brasileira adulta ainda é fumante. Outros dois problemas precisam ser enfrentados urgentemente: 1. o aumento do consumo de alimentos industrializados, normalmente ricos em gorduras hidrogenadas e; 2. o declínio do gasto energético associado ao transporte motorizado, à mecanização do trabalho e outras tecnologias que facilitam a inatividade física.6
Algumas recomendações de mudança de comportamento são incentivadas pela Organização Mundial de Saúde: 6
Redução de alimentos de alta densidade calórica: alimentos ricos em gordura e carboidratos simples altamente processados (pobres em micronutrientes), típicos dos serviços de fast food.
Aumento da ingestão de fibras: que são alimentos de baixo valor energético e constituem grande parte do volume alimentar. Alimentos integrais são normalmente indicados.
Aumento da ingestão de frutas, verduras e legumes (preferentemente orgânicos ou de origem conhecida e próximos da sua região): Se existe um ponto de consenso – quase universal – entre os cientistas é que se deve “comer mais vegetais”. Há vários estudos demonstrando que uma dieta rica em frutas e hortaliças reduz o risco de se morrer de doenças crônicas.
Redução de bebidas açucaradas (refrigerantes): o consumo frequente de refrigerantes tem sido associado ao ganho de peso.
Ambientes domiciliares, escolares e de trabalho que promovam a alimentação saudável e atividade física: comportamentos que promovem ganho de peso andam juntos, por exemplo, assistir televisão, ingerir refrigerantes e comidas rápidas, fazer pouco exercício, está associado a maior obesidade;
Diminuir consumo total de gorduras e eliminar gorduras hidrogenadas (trans): Gorduras tras, formadas pela hidrogenação parcial das gorduras vegetais, encontrados em margarinas, biscoitos, bolos prontos e pão branco, aumentam o risco de desenvolver doença coronariana.
Mudar hábitos alimentares: há evidências que deveríamos “comer menos”. Em países como a França e Japão, por exemplo, o tamanho das porções em restaurantes e supermercados, é bem menor que a maioria dos outros países. Além disso, o hábito de comer devagar faz a pessoa se saciar e parar antes. O hábito de comer fora de casa também pode contribuir para o aumento da ingestão energética, pois as porções normalmente são maiores em restaurantes.
O desafio na busca de uma alimentação de qualidade está no processo de tomada de consciência da sociedade, em particular dos consumidores, sobre como é produzida e processada a nossa comida. Uma alimentação consciente tem relação direta com a forma de produção, com hábitos alimentares saudáveis e de consumo responsável. Lembre-se de quando chegar aos 70 anos vai ter ingerido cerca de 25 toneladas de comida. As opções de escolha aumentaram, portanto, atenção aos alimentos que mentem!
Moacir R. Darolt é Agrônomo, Doutor em Meio Aambiente. É pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR) e Vice-Presidente da Associação de Consumidores de Produtos Orgânicos do Paraná - ACOPA.
Referências Bibliográficas e Notas
1POLLAN, Michael. Em defesa da comida. Tradução de Adalgisa Campos da Silva. Rio de Janeiro: Intrínsica, 2008. 272 p.
2IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Agropecuário 2006 – Resultados preliminares. p. 1-146. 2009.
3PRETTI, F. Valor nutricêutico das hortaliças. Horticultura Brasileira, v. 18, 2000, Suplemento Julho. p. 16-20.
4HALWEIL, B. Still No Free Lunch: Nutrient levels in U.S. food supply eroded by pursuit of high yields. The Organic Center, sept. 2007, 44 p. Disponível em http://www.organic-center.org/reportfiles/Yield_Nutrient_Density_Final.pdf. Acesso em 22 de dezembro de 2009.
5AVC = Acidente Vascular Cerebral ou Derrame Cerebral são termos usados para definir uma situação em que uma isquemia cerebral, ou seja, a redução do fornecimento de sangue a uma parte do cérebro, acarreta uma “perda” de seu funcionamento. Os fatores que aumentam o risco de se ter um derrame são diabetes, hipertensão, colesterol alto, tabagismo e fatores genéticos.
6BARRETO, S.M.; PINHEIRO, A.R.O.; SICHIERI,R.; MONTEIRO,C.A.; BATISTA FILHO, M.; SCHIMIDT, M.I.; LOTUFO,P.; ASSIS,A.M.; GUIMARÃES,V.; RECINE, E.G.I.G.; VIXTORA,C.G.; COITINHO,D.; PASSOS, V.M.A. Análise da estratégia global para alimentação, atividade física e saúde, da Organização Mundial de Saúde. Epidemiologia e Serviços de Saúde. Vol. 14 , N.1, jan/mar 2005, p. 41-68.
Por
Moacir Darolt |

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